A “TRILOGIA DA DEPRESSÃO” DE LARS VON TRIER

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O Polêmico e já consagrado declarado Ateu, Escritor e Diretor Dinamarquês Lars Von Trier – que foi até mesmo considerado “Persona non grata” no festival de Cannes e banido do evento por algumas edições, por ter sido mal interpretado quando declarou “compreender Hitler” – no inicio de 2014 concluiu o que ele intitula de a “Trilogia da Depressão”, sua obra-prima que reúne três grandes películas independentes entre si, regradas a tabus, refinamento e muito questionamento social.

Com um profundo mergulho em pensamentos autodestrutivos, os três filmes que compõe sua trilogia (“Anticristo – 2009”, “Melancolia – 2011” e “Ninfomaníaca – 2013/2014” – este último foi divido em 2 volumes devido a sua longa duração) apresentam uma carga emocional pesada, diálogos com duras criticas ao politicamente-correto, cenas de extrema violência, auto-mutilação e pornografia. Os intervalos entre o lançamento de cada obra, em média 2 anos, foi o tempo essencial que o diretor encontrou para fazer seu público absorver suas ideias e ainda conseguir produzir rapidamente a próxima película com extrema qualidade.


1. ANTICRISTO | O mais profundo e inóspito


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Logo na cena de abertura, nomeada “Prólogo”, um casal está transando loucamente no banheiro, em quanto isso no quarto ao lado, o pequeno filho deste mesmo casal consegue sair de seu berço e ir caminhando desgovernadamente pela casa. A janela de uma sala está aberta, algo atrai o pequeno garoto até lá e ele acaba caindo e em consequência disso morrendo (uma das mais lindas sequências que já vi nas centenas de películas que já assisti). O abre-alas da trilogia de Lars, explora o máximo do sentimento de culpa que um ser humano pode ser acometido.

O marido interpretado pelo brilhante Willem Dafoe, é psicologo e toma sua esposa interpretada com maestria por Charlotte Gainsbourg (a “musa de Lars”, que faz parte do três filmes da trilogia – Recebeu o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes por sua interpretação) como sua paciente, e para que ela se recupere de sua pesada depressão eles vão para uma velha cabana no meio de uma mata isolada em busca de um tratamento que possa cura-la.

Lars Von Trier escreveu esse filme logo após ter saído de uma pesada depressão, e graças a esse “laboratório” que passou, conseguiu capturar a essência deste mal, e escreve o filme de forma brilhante, assustadora e muito surpreendente. O descontrole que vai tomando conta do enredo a cada capítulo que avançamos (os filmes da Trilogia de Lars sempre são subdividos em capítulos), e o rumo dessa história nos leva para um desfecho inimaginável.

Sem sombra de dúvidas poderia ser a “Obra-prima” de Lars, mas quando pensamos que ele não poderia mais nos surpreender, devemos lembrar que este é apenas o primeiro filme de uma Trilogia bizarra que ainda nos traria muitas surpresas. Anticristo concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes daquele ano.

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2. MELANCOLIA | O mais delicado e contido


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Depois de chocar o mundo com “Anticristo”, agora temos um Lars Von Trier mais amistoso com seus próprios personagens e menos sombrio, mas nem por isso menos talentoso. Em “Melancolia” acompanhamos a trajetória de uma família que não sabe como lidar com o fim do mundo, o planeta Melancolia está se aproximando da terra e a colisão entre os dois é eminente.

Aqui, Lars consegue retratar o gênero “Apocalipse” sem cair no mesmo clichê de outros filmes que apresentam a mesma temática. O único contato que os personagens tem com a catástrofe é a internet. Ele mostra o drama real e profundo de uma família em desespero sem saber o que fazer caso de fato a vida na Terra (a e Terra) acabe. A Atuação de Kristen Dunst  em Melancolia rendeu a ela o Prêmio de Melhor Atriz no festival de Cannes daquele ano, interpretando uma jovem depressiva e que não tem perspectivas de vida, mas que na hora do desespero da uma lição na família, mostrando para sua irmã interpretada pela Charlotte Gainsbourg (a musa de Lars) como lidar com esse terrível momento.

Mesmo com um tom mais delicado, Lars não polpa suas criticas ao moralismo e constrói personagens complexos e muito convincentes, com um elenco impecável que o ajudou e muito a transmitir o que ele realmente queria e da forma que pretendia. Melancolia é o filme mais arratado da Trilogia, mas esse tom de calmaria se fez necessário uma vez que a catástrofe está cada vez próxima de acontecer, e nesse pouco tempo que resta aos personagens eles ainda tem muito o que fazer e muitas experiencias para trocar. Com “Melancolia” Lars Von Trier arrebatou inúmeros prêmios em festivais de Cinema Europeus.

Nessa película Lars abandonou a violência, a morbidade e a sexualidade. Era uma breve pausa para podermos nos preparar pelo o que viria pela frente, seu grande trunfo ele deixou para o final, e sua maior personagem já criada também. Essa grande façanha foi realizada dois anos depois, em Ninfomaníaca.

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3. NINFOMANÍACA | O mais expressivo e ultrajante


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Um festival de vaginas e pênis, uma excelente história e um ótimo elenco/personagens, é isso que Ninfomaníaca nos mostra. Acompanhamos a jornada de uma viciada em sexo que conta sobre sua vida desde a infância até a meia-idade. Lars Von Trier e Charlotte Gainsbourg novamente emplacam sua parceria, porém desta vez muito mais grandiosa.

Com mais de 4 horas de duração o diretor cortou o filme em 2 volumes (na versão sem cortes eles passam de 5 horas e meia) o espectador é agraciado por cenas imorais, polêmicas e provocadoras. Um filme que instiga de tal forma que você é arrebatado para dentro da história e consegue ser cativado pela fria protagonista, que não sabe o que é o amor, e se por ventura sabe, não aprendeu e entende-lo. De fato o que ela tem é uma doença, totalmente fora de controle mas sem negação, a personagem sabe que sofre de vício por sexo mas ama ser assim, por que isso é o que ela é, então ela mergulha profundamente no submundo que a realidade dela lhe proporciona.

As cenas de nudez e sexo explicito (com direito a close de penetrações) são tantas, que passam a ser segundo plano da história, o espectador acostuma, e Lars disse em entrevistas que esse era o ponto que ele queria chegar com seu filme, ou seja, o sexo é tratado de uma forma tão natural no filme, que consegue transmitir o mesmo sentimento ao espectador, que em certas momentos estranha não ter alguém passando pelado ali ou aqui pela tela.

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Mas antes de Ninfomaníaca ser um filme de (muito) sexo, ele é um filme sobre o amor, e ao desenrolar da história você vai se dando conta disso. Existem questão que são levantes pelos personagens que a todo momento criticam a sociedade, o politicamente-correto e todo e qualquer tipo de caretice ou convenção que a sociedade possa ter. De fato não é um filme para todos, ele é bastante peculiar e nada ortodoxo, mas ainda sim tem um dos roteiros mais brilhantes que já assisti, e Von Trier está insuperável em sua direção, com certeza o momento brilhante de sua carreira.

Com esse filme ele sela sua trilogia, deixa seu nome registrado e mostra o quão talentoso é, sabendo explorar a fundo os sentimentos mais profundos dos seres humanos em seus personagens complexos, nada convencionais e ainda sim encantadores. Em termos de grandes premiações foi sua película mais esnobada (na Dinamarca, país de origem teve o devido reconhecimento) mas isso se deve aos dogmas dos grandes festivais que não selecionaram para concorrer entres outras obras uma “Pornografia refinada”, apesar de o filme não “ser” pornográfico mas sim “ter” pornografia, o que são coisas extremamente diferentes. Mas diferente de seus personagens e seus filmes, no mundo real Lars Von Trier não consegue mudar as convicções da sociedade, mas em sua obra ele brinda o espectador com um sentimento de libertação e imoralidade que acarreta uma frenesi e eloquência que poucos outros filmes causam. Uma experiencia única e totalmente satisfatória.

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A Trilogia da Depressão de Lars Von Trier, pode ser considera uma obra-prima, e mesmo se desmantelada, e cada filme for analisado separadamente ainda sim não decepcionada em nada. Seus filmes dispõem de 3 pontos positivos: Roteiro, Direção e Interpretação. Ele consegue reunir estes 3 principais itens de uma forma tão brilhante que é quase impossível identificar alguma falha em seus filmes, ele consegue endeusa-los, estão em um nível muito superior ao cinema tradicional atual. E sua trilogia está com certeza nas minha lista dos 10 filmes para assistir antes de morrer, “Graças à Von Trier” já tive o imensurável prazer de assistir.

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